Depois de alguns estudos, comunicações e artigos sobre o padre Fernão de Oliveira, tenho a ousadia de colocar nas mãos do leitor mais um título, que apenas designa um resumido e despretensioso apontamento para nele arquivar o que fui escrevendo e dizendo até agora, embora com nova arrumação. Confesso que, sem sombra de dúvida, sempre me estimulou conhecer algo sobre a vida desta personalidade do século XVI; aliás, têm surgido a lume preciosos trabalhos de investigação e de análise, assaz pormenorizados, saídos da pena de diversos autores.

Fernão de Oliveira – ou Fernando Oliveira, como consta nos seus manuscritos dos últimos anos[1] – foi um insigne aveirense de aura internacional, que se evidenciou por uma obra assinalável em vários ângulos e congruente com a sua mundivisão, apesar de lamentavelmente esquecido durante muito tempo. Figura polémica no viver, no trajar e no pensar, mas fascinante pelo seu muito saber, destacou-se como pioneiro na sistematização dos princípios gramaticais da língua portuguesa, na descrição da tática militar marítima, na divulgação da arquitetura náutica e na nossa história pátria.

Assinatura de Fernão de Oliveira

Sacerdote dominicano, clérigo secular, humanista, filólogo, nautógrafo, cartógrafo, historiador, professor, patriota, diplomata, viajante, marinheiro, piloto, soldado, perseguido e sobretudo um grande aventureiro, Fernão de Oliveira viveu uma existência plena de episódios díspares. Contudo, por outra parte, os seus conhecimentos multiformes manifestam uma invulgar erudição, com base tanto em princípios cristãos e humanizadores como na experiência pessoal, colhida de muitas maneiras. Não se pode duvidar de que ele – segundo a afirmação de Luís Machado de Abreu (Morais, 2009; pg. 97) – «pertence ao número dos homens ativos que gostam de se ocupar em coisas que sejam úteis para si e para os outros.» Por isso, tem de ser considerado, com muita justeza e sem qualquer perplexidade, não só como uma figura incontornável e lídimo representante do Renascimento português, mas ainda como uma glória da então vila onde foi gerado e da aldeia onde ‘soltou os primeiros vagidos’, além de ser um membro ilustre da família a que pertenceu.

Fernão de Oliveira demonstra, pelo teor do seu testemunho, que em certos períodos da história humana, surgem pessoas com tal vigor que se salientam no comum da sociedade. Notável pelos seus conhecimentos, pela sua coragem e pelo seu desassombro em díspares opiniões, tão avançadas na época que lhe causaram dissabores, este aveirense evidenciou-se num período em que Portugal revelou ao mundo a singularidade dos seus sonhos, a exuberância da sua inteligência, a multiplicidade da sua ação e o esforço pela ‘globalização’. Com toda a razão, segundo escreveu Henrique Lopes de Mendonça (1898; pg. 81), «o vulto do padre Fernão de Oliveira é digno de ser estudado sob todos os seus aspetos; ele representa em Portugal uma das mais brilhantes personificações do espírito do livre exame em pleno século XVI.»

Todavia, desde já, ao iniciar-se este apontamento, lembra-se a controvérsia sobre o lugar do nascimento do padre Fernão de Oliveira – se Aveiro ou se Couto do Mosteiro (Santa Comba Dão); surgirá a oportunidade de esclarecer este enigma, recorrendo aos documentos que se conhecem. Porém, não há qualquer dúvida de que ele está intimamente ligado a Aveiro por diferentes motivos, como a presença secular e contínua dos seus antepassados familiares com o mesmo sobrenome, a residência dos seus pais, a sua geração no seio materno… e a sua própria afirmação.

fonte: “FERNÃO DE OLIVEIRA, AVEIRENSE, SACERDOTE E HUMANISTA” de Monsenhor João Gaspar


[1]Fernão de Oliveira; – 1536, na Grammatica da Lingoagem Portuguesa. Fernão de Oliveira e Fernando Oliveira: – 1547-1551, no Processo da Inquisição. Fernando Oliveira: – 1554, na Arte da Guerra do Mar; – 1580 (?), no Liuro da Fabrica das Naos; – 1581 (?), na Hestorea de Portugal. Ferdignandus Oliverius:– 1570 (?), na Ars Nautica.

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