O lado maternal do Seminário é algo profundamente enraizado no dia-a-dia e no Programa da Casa, como frequentemente era dito. Quem viveu o Seminário para além de um ou dois anos terá bem presente essas experiências orientadas para a mediação e espiritualidade marianas.

No fundo, o Seminário era o reflexo das comunidades cristãs na pluralidade de iniciativas que aproximam os crentes das diversas invocações, títulos e orações a Maria, e da relação persistente com Jesus Cristo. Num Seminário, casa de rapazes e crianças em discernimento para poderem vir a ser sacerdotes, a passagem de Isaías (49,15) era um laboratório diário sobre o amor de Deus proclamado no amor maternal pelo seu povo, maior do que o de qualquer mãe pelo seu filho. Como é importante continuar a contemplar a face feminina de Deus no contexto atual de valorização da mulher, da sua dignidade e direitos próprios, da sua liderança social. Na ausência da mãe biológica, era relativamente fácil contemplar o rosto e as virtudes da Mãe Divina.

A vivência mariana, em maio, assumia contornos muito inovadores para a época — quase sempre, sendo a exceção mais notada no Seminário Maior, onde num ou outro momento algum aprendiz de Teologia mais conservadora ou um “Mariologista de águas mais profundas” dava um ar da sua graça mais pontifical.

No Seminário de Calvão era costume rezar-se o terço “peripatético”, em grande grupo, a subir a “Avenida das Acácias” até ao lago. Chegou também a haver uma peregrinação a Fátima, em preparação do Ano Internacional da Criança, em 1979. Nesses anos 70 do século XX, por falta de espaço adequado no interior da casa, realizavam-se imensas atividades recreativas no exterior — pelos pinhais, na Quinta, junto ao Lago, à piscina, aquele tanque logo à esquerda do portão principal, que até para jogar futebol serviu. Eram atividades genuinamente recreativas, porque a televisão começava a ter uma programação que suscitava inspiração para reproduzir os conteúdos — do Sandokan, do Janosik, dos Quatro Blindados, do Espaço 1999. Foi num desses momentos recreativos que, num sábado à noite, um grupo de colegas pediu ao saudoso Padre Victor Zé, de Ílhavo, para ir para a cama em vez de ficar a ver televisão. Parecia claro que tal propósito ia dar asneira — e deu, com barulho e confusão. Para evitar males maiores, ao aviso de “vem aí o Padre Victor”, pegaram numa imagem de mesa de cabeceira de Nossa Senhora de Fátima, em plástico resplandecente que reluzia no escuro — ainda a tenho! —, e irromperam num ato de “profunda piedade”: uma procissão-oração do terço, de joelhos, pelo corredor entre camaratas. Foi um milagre: em vez de pesado castigo, foram elevados em elogio público por tão dedicados propósitos.

Em Aveiro, no Seminário de Santa Joana, com mais acompanhamento e progressiva maturidade, o terço era rezado por curso, em pequenos grupos, ou mesmo por toda a comunidade. Por iniciativa diversa, rezávamos o terço por aqui ou por ali, sempre à procura de um lugar mais airoso e aberto, como o Claustro, por exemplo.

No Seminário de Coimbra também era comum encontrar grupos de colegas, depois de jantar, a rezarem pelos caminhos entre as tílias ou, numa versão mais arrojada, com laivos de proselitismo, numa ou noutra incursão pelo Jardim Botânico.

M. Oliveira de Sousa, ADASA

CV 6.5.2026