Passa-me às vezes pela mente o receio de que, agora que já se vêem luzes no seminário, agora que já se acende lá o fogão, agora que já os mestres sobem às cátedras e os discípulos escutam atentamente nas suas envernizadas e reluzentes carteiras, agora que já retine pelos corredores a sineta que chama os alunos à capela, às aulas, ao refeitório, já se possa pensar agora que o caso do Seminário é um caso perfeitamente arrumado, um destes casos que deixaram de pertencer ao mundo dos vivos para descerem em peso ao porão da História e aí dormirem, sem ninguém mais se inquietar com eles, o sono dos séculos.
Estamos longe, bem longe ainda, desse absoluto e almejado arrumo; falta ainda um novelo espantoso de inquietações, de esforços, de lutas, uma mina de ouro, para nós podermos dizer que a construção do Seminário foi uma empresa que, realizada integralmente o seu curso, hora a cavalo ora a pé coxo, ou a cem à hora ou à velocidade da lesma, está agora nas prateleiras de algum silencioso e venerando arquivo.
Todos sabem até que eu, se fosse a fazer aquilo que mais me estava no gosto, preferia mil vezes que só houvesse vida de seminário no Seminário depois de se ouvir lá a última martelada dos operários, depois de se extinguir lá o último grão de poeira das obras, depois de não haver mais nada a fazer lá senão abrir a porta e entrar. Mas foi preciso apressar e fazer como os cães: acomodar um canto entre o tumulto, defendê-lo com umas aparas ou com uma ripas, abrir-lhe uma cova, dar-lhe umas voltas e, fechados os olhos, fechados também os ouvidos, fazer por dormir.
Põe-se, é verdade, um tapume simbólico: calafetam-se as frinchas para não entrar a poeira, colocam-se almofadas nas portas para amortecer ou abafar os sons, mas temos que reconhecer que os tapumes não são impermeáveis nem metafísicos, empíricos; que a poeira pouco ou nada se importa com o alcatrão ou com betume das frinchas; e que a orquestra da serra e do malho, como se diz na canção do trabalho, pouco se importa, pela sua parte, com os dedos polegares a tapar os ouvidos.
(Recordando D. João Evangelista de Lima Vida, in CV de 17.11.1051)