O final do ano escolar aproxima-se — aproximava-se, claro. Com ele, assim como noutros momentos conforme a gestão pedagógica de cada casa-Seminário, chegava a festa das famílias. Era tempo de revisão, de avaliação e de projeção de outras dinâmicas ou desafios.

Em Calvão, por exemplo, os que por finais da década de 70 frequentaram o Seminário de Nossa Senhora da Apresentação recordam como grande desafio a construção do velhinho pavilhão gimnodesportivo, como se designava. Os pais chegavam pela manhã, na diversidade de transportes conforme as possibilidades — o meu pai ia quase sempre de bicicleta, quase 50 quilómetros entre ir e vir. A minha mãe não tinha tanta possibilidade e nunca podiam ir os dois. Inevitavelmente, levava um inesquecível arroz de ervilhas com costeletas grelhadas, num tacho bem aconchegado, pão caseiro e, nem sempre, uma porção de pão de ló — tudo muito saboroso, com o sabor de casa.

Na festa de famílias de 1978, em Calvão, no Ano Internacional da Criança, depois de uma manhã de avaliação do ano no ginásio, ali à saída do salão de estudo do 1.º/5.º ano, houve missa campal junto ao tanque-piscina de então. Esmerámo-nos em tudo: na preparação de umas estruturas enfeitadas ao género de barraquinhas e bar, no canto, no arranjo do espaço-palco feito com dois atrelados de trator de pais de colegas externos de Calvão. O almoço, como era típico, foi em regime de piquenique. Durante a tarde houve muita animação — pela primeira vez ouvimos um grupo cantar e replicar o “vamos brindar com vinho verde…”, uma canção de Paulo Alexandre, nome artístico de Modesto Santos, de Vouzela, adaptada do tema “Griechischer Wein” de Udo Jürgens, de 1974.

Em consequência disso, e das Sumol que sobraram da festa das famílias, poucos dias depois alguns colegas fizemos uma pequena patifaria que custou a alguns a não entrada no Seminário de Aveiro.

No Seminário de Santa Joana, o modelo era idêntico. Recordo aqui apenas dois episódios que marcaram o nosso tempo. O primeiro foi a célebre resposta às inquietações dos colegas do então 9.º ano — do Luís Oliveira, do Rui Santana, do Francisco Lopes —, sobre o que é o 9.º ano, perguntavam durante a manhã na assembleia no Salão de Festas: “Para receber castigos, somos dos mais velhos; para usufruir de alguma liberdade, somos dos mais novos!” O saudoso Padre Fonte respondeu, com aquele sorriso que recordamos: “Todos os pintos para chegarem a galos têm de ser, primeiro, frangos.” Assunto resolvido com uma valente gargalhada.

Em Aveiro, o grande desafio foi a construção da igreja, desde 1978 até 12 de junho de 1983, se não estou em erro, com a inauguração numa Festa das Famílias. Recordamos os autocolantes e os mealheiros para ajuda de toda a Diocese, e o trabalho dedicado e incansável de tanta gente, que homenageamos na pessoa do falecido pai do Padre Arménio e dos nossos professores — tantos por ali passavam a dar uma ajuda —, que recordamos no Professor Henrique Coelho. Aquela Equipa Sacerdotal era extraordinária: liderada pelo saudoso Padre Arménio, com o Padre Fonte e os bem ativos Padre José Henriques, Padre José Camões e Padre Rocha — substituído, se não estou em erro, devido ao serviço militar, como era comum com os padres mais novos da equipa, pelo também saudoso Padre José Manuel.

Em Coimbra, até sensivelmente 1988/89, a Festa das Famílias começava no sábado à noite. Os pais que necessitassem passavam a noite no Seminário, e o dia de domingo seguia o mesmo padrão, exceto o almoço, que o Seminário oferecia a todos no refeitório. Com a chegada dos colegas da Diocese de Portalegre-Castelo Branco, o modelo foi alterado para um único dia — o domingo —, com almoço partilhado.

Quando somos capazes de fazer convergir, cumpre-se o aforismo de Nelson Mandela: “Tudo parece impossível até que seja feito.”

M. Oliveira de Sousa, ADASA

CV 20.05.2026