A vida no Seminário, para quem a vivia intensamente — não se podia estar com um pé dentro e outro fora —, era uma vida intensa e acelerada. Os dias, mesmo os mais melancólicos, passavam num ápice. Como havia horário para tudo, havia tempo para tudo: estudo, limpeza, trabalhos da vida da casa, arranjos, desporto, cultura, música, teatro, leitura… oração. E aulas, claro.

Normalmente, depois do almoço, havia um tempo para descontrair. Se o inverno era mais rigoroso e severo, havia várias distrações improvisadas nos terraços debaixo das camaratas e até no ginásio. Como esse era também o tempo privilegiado para a limpeza nas salas de aula e salões de estudo, mais uma ou outra reunião preparatória de qualquer atividade e o momento de leitura do jornal na sala de leitura, esse período após o almoço passava muito rápido.

Sempre que a natureza o permitia, durante o inverno e início da primavera, a tendência era o jogo do beto — mas havia também oportunidade para o berlinde, o jogo do pau e outros. O jogo do beto era uma espécie de basebol, sem o ser. Duas equipas, constituídas em tempo recorde, um sorteio para saber quem estica, e estava assegurado o entretenimento. O nome e as regras parecem ter proveniências de vários quadrantes — basebol, críquete, taco, bets…

Os requisitos eram do conhecimento de todos os seminaristas: uma bola, de preferência de ténis; um pau ou bastão com cerca de meio metro de comprimento; uma pista com, salvo erro, sete buracos ou estações, semicircular, em ferradura, a partir de um buraco na base de onde havia de partir o serviço — o envio da bola, depois de batida por um taco, para o mais longe possível — e as duas equipas, a que estica e a que apanha. As referências delimitativas, por onde deveria partir a bola, eram pré-estabelecidas, normalmente tendo por orientação duas estações que serviam de guia para onde a bola poderia ser enviada.

O jogo só terminava quando cada uma das equipas tivesse exercido o direito de esticar, isto é, de enviar a bola para longe. Os objetivos eram dois: fazer muitas metas — a volta completa à pista após um serviço — e eliminar atletas, retirando a disponibilidade de jogadores para executarem o serviço.

Uma equipa alinha para esticar e a outra vai apanhar, espalhando-se num território predefinido para onde poderia ir a bola depois de batida. A equipa que estica tem de percorrer a pista, valendo-se dos buracos ou estações para se proteger e evitar que os seus membros sejam eliminados cada vez que a bola, devolvida rapidamente entre os membros da equipa que apanha, chega à base. A equipa que apanha deve eliminar os adversários por três vias: segurar a bola ainda em trajetória, antes que esta bata no chão; tentar intercetar, com a bola, um jogador que circula na pista; ou devolver rapidamente a bola à base, para que o máximo de jogadores que esticam fique progressivamente retido nas estações da pista, condicionando novo serviço.

Enfim, um jogo tão simples que a explicação consegue complicar.

M. Oliveira de Sousa