74 anos do Seminário de Aveiro | homilia

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Estamos, hoje, aqui reunidos no seminário diocesano para iniciarmos a celebração dos 75 anos da sua inauguração, que se completarão no próximo ano. Este é um tempo de alegria, por isso um Jubileu, mas também para refletirmos no hoje dos nossos seminários, na formação dos novos sacerdotes e no exercício do nosso ministério enquanto sacerdotes de um presbitério e membros de uma Igreja que caminha nesta porção do povo de Deus, que é a nossa Diocese.

S. Paulo, na primeira leitura aos filipenses, alerta-nos para o valor que deve ser a presença de Cristo na nossa vida, considerando tudo o mais como lixo, em comparação com o conhecimento de Cristo. Conhecer Cristo significa participar dos seus sofrimentos e, ao mesmo tempo, experimentar na nossa vida o poder da sua ressurreição. Ele reconhece que ainda não alcançou a perfeição, mas compara a sua vida a uma corrida de atleta: esquecendo o que fica para trás e lançando-se para o que vem à frente, “corro em direção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus”.

O evangelho de S. Mateus fala-nos dos missionários do Reino. Jesus, com palavras e com obras, proclamou a presença do Reino de Deus e mostrou as suas exigências. Começa a formar-se o grupo dos doze, e também vemos algumas reações à volta de Jesus: a multidão admira-O e os fariseus rejeitam-No. Agora, o evangelista diz-nos que “Vendo a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor” (9, 36). Movido pela compaixão por essa multidão, diz aos seus discípulos: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a Sua messe” (9, 37).

No dia 5 deste mês, o Papa Leão XIV enviou uma carta ao Seminário Maior de Trujillo, no Perú, fundado há 400 anos por S. Toríbio de Mogrovejo, onde procura responder a algumas das questões que se colocam hoje à formação dos seminários e à missão dos sacerdotes no acompanhamento dos seminaristas, e na sua relação com o seminário.

A missão do seminário é ajudar os seminaristas a estar com o Senhor, deixar que Ele os forme, conhecê-lo e amá-lo, para poderem parecer-se com Ele. Por isso, a Igreja quer que existam os seminários, lugares para potenciar esta experiência e preparar aqueles que vão ser enviados a servir o santo Povo de Deus. Desta fonte brotam também as atitudes que são o fundamento do ministério dos sacerdotes.

O ministério nasce da eleição do Senhor (cf. Mc 3,13) que, com especial predileção, chama alguns homens para os tornar participantes do seu ministério salvífico, a fim de que reproduzam em si a sua própria imagem e deem permanentemente um testemunho de fidelidade e amor. Quem procura o sacerdócio por motivos fúteis, equivoca-se no alicerce e constrói sobre a areia (cf. Mt 7, 26-27).

A vida no seminário é um caminho de conversão interior. Temos de deixar que o Senhor entre no nosso coração e mostre, com claridade, aquelas que são as nossas decisões. A retidão de intenções significa poder dizer cada dia com simplicidade e verdade: “Senhor, quero ser teu sacerdote, não para mim, mas para o teu povo”. Esta transparência cultiva-se na confissão frequente, na direção espiritual sincera e na obediência confiada naqueles que acompanham o discernimento. A Igreja pede seminaristas de coração transparente, que procurem o Senhor sem duplicidade de vida e não se deixem prender pelo egoísmo e pela vaidade.

O coração do seminarista forma-se no trato pessoal com Jesus. A oração não é um exercício acessório, nela aprende-se a reconhecer a sua voz e a deixar-se conduzir por Ele. Quem não reza, não conhece o Mestre, e quem não o conhece, não pode amá-lo de verdade, nem configurar-se com Ele. O tempo dedicado à oração é a inversão mais fecunda da vida, porque nela o Senhor modela os sentimentos, purifica os desejos e fortalece a vocação. Não pode falar de Deus quem fala pouco com Deus!

Na carta dirigida à comunidade do seminário de S. Carlos e S. Marcelo, o Santo Padre também se dirige a nós sacerdotes, e ao nosso modo de viver o ministério. A união com Cristo no Sacrifício eucarístico prolonga-se na paternidade sacerdotal, que não gera segundo a carne, mas segundo o Espírito (cf. 1Cor 4,14-15). Ser padre não é algo que se faz, mas o que somos. Jesus não vive para si mesmo, mas para os seus: alegra-se quando os seus filhos crescem, sofre quando se perdem, espera quando se afastam. Assim também o sacerdote transporta no seu coração o povo que lhe foi confiado, intercede por ele, acompanha-o nas suas dores e sustenta-o com a sua fé. A paternidade sacerdotal consiste em fazer transparecer o rosto do Pai, de modo que quem encontre um sacerdote intua o amor de Deus.

Esta paternidade expressa-se em atitudes de entrega: o celibato como amor indiviso a Cristo e à sua Igreja, a obediência como confiança na vontade de Deus, a pobreza evangélica como disponibilidade para todos (cf. PO 15-17) e a misericórdia e a fortaleza que acompanham as feridas e nos mantêm na dor. Nelas se reconhece o sacerdote como verdadeiro pai, capaz de guiar os seus filhos espirituais para Cristo, com firmeza e amor.

Caros irmãos e irmãs:

O Concílio Vaticano II pede a todos os sacerdotes que considerem o Seminário como o coração da diocese e lhe prestem, de boa vontade, a própria ajuda (cf. OT 5). Sem esquecer que o seminário foi o seio maternal onde se fez a nossa formação sacerdotal, peço a todo o presbitério que acompanhe o seminário com as suas alegrias e as suas dores, e seja verdadeiramente o coração que dá vida a todo o corpo que é a Igreja que peregrina em terras de Aveiro.

Termino com as palavras que brotaram do coração e da pena do bispo fundador deste seminário, D. João Evangelista de Lima Vidal, na sua pastoral Pelo Seminário, de 27 de dezembro de 1938, vinte dias após ter sido restaurada a diocese (11-12-1938): “O que vos quero dizer é isto: é que vamos todos, pequenos e grandes, pobres e ricos, homens, mulheres ou crianças, é que nos vamos deitar de cabeça a esta obra do seminário. É o melhor serviço que nós poderemos prestar à nossa Igreja. (…) Mas o Seminário há de erguer-se, um Seminário digno da juventude da nossa Igreja, onde os candidatos ao sacerdócio possam formar-se condignamente, com todos os cuidados e desvelos, um Seminário que possa dar à Igreja de Aveiro muitos, idóneos, santos e apostólicos sacerdotes.

(…) Mas que posso eu esperar, por exemplo, de um garotinho da rua, destes de pé descalço? Sim, ele não poderá dar nenhuma moeda, não poderá mesmo dar um grão de milho ou um botão da sua camisa, porque ou não terá camisa ou a camisa não terá botões, mas poderá gritar, com as goelas abertas que o Senhor lhe deu: – Viva o Seminário.

Que o Coração de Jesus nos ensine e transmitir o amor misericordioso Deus ao povo que nos foi confiado e Santa Joana Princesa, nossa padroeira, caminhe ao nosso lado na promoção de vocações sacerdotais e de consagração.

Aveiro, 14 de novembro de 2025